FAJE
Mensagem do Reitor

 

A crise espiritual que afeta nosso país pede de nós reações precisas e enérgicas. A vida acadêmica não pode permanecer alheia à atualidade histórica em que se enraíza, sob pena de se perder na irrelevância. Assim, proponho que promovamos, em 2016, a Comunidade Formativa da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, como clara e decidida contribuição de nossa instituição para a superação da crise.

Entendo por Comunidade Formativa o ambiente que criamos quando nos dedicamos generosamente à investigação e ao estudo, em nosso caso, nos diversos territórios da Filosofia e da Teologia. Esta tarefa, seguindo a mais autêntica tradição espiritual, concorre para a conversão dos que a enfrentam. A realidade que padecemos, quando a ela nos voltamos atentos e abertos, nos instrui e nos chama a viver melhor. E a vida melhor nos torna mais capazes de compreender a inesgotável realidade.

Participar do círculo vivo do pensamento e da ação, que evoquei acima, constitui o único processo apto a “formar pensadores para o mundo”. E isto é fundamental, pois os autênticos pensadores sabem exercer a atenção, o questionamento e a distância crítica necessários para interpretar, em nosso caso a partir do ponto de vista filosófico-teológico, os aparentes impasses do presente, e apontar as saídas que promovam a Paz e a Esperança em nossas sociedades.

Eis porque a Comunidade Formativa não pode ser o refúgio de preconceitos opressores ou de relações inautênticas, que a esterilizariam. Ao contrário, ela se caracteriza pela criatividade e a coragem de seus membros, quando nos auxiliamos na tarefa comum e no enfrentamento dos problemas do dia-a-dia da Faculdade, onde de fato nos formamos! Cabe a cada membro da comunidade corrigir, em si e no outro, todo comportamento desrespeitoso e atitude imatura. Quem puder mais ajude quem ainda pode menos a crescer como intelectual e como pessoa.

O olhar misericordioso é fundamental para promover a Comunidade Formativa. A misericórdia consiste em ver no outro, sobretudo quando este nos ofende ou nos pesa, alguém que também deve ser salvo, que precisa encontrar sentido para a própria vida e, assim, se realizar como pessoa, em relação com os demais. Quem vive segundo a misericórdia não admite que se condene definitivamente quem erra. Mas acredita que a correção fraterna sincera, o julgamento correto e o auxílio exigente podem promover e mudar para melhor o próximo. Trata-se, portanto, de imaginar e realizar uma comunidade dinâmica e aberta, onde a surpresa da vida nova acontece.

Hoje, em nosso país e no mundo, deparamo-nos com fortes ameaças. A corrupção sistêmica perverte as relações políticas. A realidade política perde, então, seu sentido primordial, que consiste no exercício legítimo do poder, apoiado na organização do Estado, para empregar toda força disponível na promoção da justiça em sociedade. A busca desenfreada do lucro a qualquer custo, desprezando a economia real, coloca em risco o equilíbrio da nossa casa comum. Os desastres ecológicos, provocados por esta ilusão diabólica, matam o futuro de gerações inteiras. A manipulação da crença religiosa, para fins políticos de domínio ou para servir à ganância dos espertalhões, escandaliza os simples e desacredita os que professam autenticamente a fé. A destruição das tradições vivas, que conferem sentido à aventura da existência em sociedade e nos congregam -  destruição perpetrada em nome de nada além da revolta, do ressentimento e da recusa -  enfraquece as motivações para a transformação de nosso mundo, dentro dos limites do possível.

Creio que devemos nos abrir a estes e outros eventos que compõem a crise atual, para analisá-los destemidamente. A Comunidade Formativa da FAJE pode e deve gerar investigação e conhecimento relevantes. O enfrentamento da crise e a formulação de propostas, limitadas mas plausíveis, é nossa responsabilidade e dos demais pensadores das diversas áreas de conhecimento e de ação. Em nosso caso, cabe-nos, sobretudo, dar testemunho razoável e argumentado dos valores inegociáveis que norteiam a vida humana. O futuro dependerá da consistência espiritual do presente. E a defesa do presente enraíza-se no discernimento do passado e no apelo que brota do porvir esperançoso. O presente, aliás, não abriga apenas crise e ausência de sentido. Ele se encontra habitado, igualmente, por iniciativas consistentes e promissoras, na política, na economia, no cuidado ecológico, na vida religiosa e na cultura. Localizá-las e promovê-las é parte de nosso desafio. Podemos ir ainda mais longe, se formos criativos e ousados.

O primeiro movimento consiste, no contexto da FAJE, na instalação de comunidade justa e misericordiosa. Nela, seremos “formados”, na medida em que aceitarmos o caminho exigente que Filosofia e Teologia, unidas e inseparáveis, abrem diante de nós. Como concebê-lo? A Filosofia não se contenta com o viver imediato e irrefletido, mas ausculta o horizonte misterioso em que a existência humana se desdobra e busca orientar-se, segundo o amor da sabedoria. A Teologia proclama, em sua reflexão que une a fé à cultura, que este horizonte não se retrai indefinidamente, mas se apresenta e se comunica à humanidade. O Infinito habita o finito, o Eterno se insinua no tempo que passa. A história se encontra aberta pela irrupção da Revelação, a qual marca, quer se queira ou não, o ambiente em que vivemos e exercemos nosso labor filosófico-teológico. A partir desta abertura, não tenhamos medo de apresentar a nossos contemporâneos a luz humilde produzida pelo contato entre fé e razão, luz que a todos deve guiar, embora alumie apenas um passo após o outro, rumo a dias melhores.

 

 

Álvaro Mendonça Pimentel SJ
Reitor

                                             

               

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